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O Brasil não Torce pelo seu Próprio “Azarão”


Texto de:

Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos[1]

Professor de História da Universidade Estadual de Goiás – UEG. Autor do Livro A Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro: Ceará - Harvard - Ceará. 2024.


 

Como um megaevento global, a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026, finalizada no último dia 19 de julho, pode e deve ser vista sob diversos ângulos e perspectivas.[2] Uma dessas possibilidades envolve a compreensão desse grande torneio internacional como um evento que atualiza uma longa tradição ocidental centrada no esforço, no autocontrole, na resiliência e na superação das adversidades. Isso acontece ao transformar o campo de futebol em um dos palcos modernos para a disputa entre “fortes contra fracos” ou “grandes contra pequenos”, mobilizando, dessa forma, mentes e corações ao redor do mundo.


Essa compreensão se estabelece porque, desde o registro do Antigo Testamento sobre David versus Golias até as grandes produções de Hollywood, a cultura ocidental é moldada pela jornada de superação do herói. Histórias em que o forte vence o fraco são previsíveis e muitas vezes entediantes, pois não geram o sentimento de libertação em relação a uma situação opressora. Já a vitória do desfavorecido mexe com o extraordinário e afirma que a quebra de expectativas faz parte das nossas vidas. Assim, o torneio esportivo se conecta diretamente com a forma pela qual a cultura ocidental, ao longo dos séculos, por meio da literatura, do teatro, do cinema e da própria historiografia, atribuiu valor moral ao esforço e à resiliência daqueles que começam de baixo e, aos poucos, vão crescendo e se desenvolvendo.


No entanto, quando a ficção e o esporte são deixados de lado para que se observe a realidade sociopolítica nacional, esse mesmo engajamento não se manifesta quando “o menor e o mais fraco” está dentro do Brasil, isto é, os habitantes da região Nordeste do Brasil, tidos como pobres, ignorantes e castigados pelas secas.  


Essa associação dos nordestinos como sujeitos inferiores e incapazes teve início com o deslocamento do eixo econômico e político brasileiro, iniciado no século XIX com o declínio do Norte (atual Nordeste) e a ascensão do café no Sul (atual Sudeste), consolidou-se na década de 1930 por meio da industrialização e da centralização financeira. Ao concentrar o capital no eixo Centro-Sul, o Estado brasileiro relegou o Nordeste à condição histórica de fornecedor de mão de obra barata.[3] Essa disparidade foi legitimada por uma poderosa narrativa que associava o Sudeste ao progresso, à modernidade e ao ideal de branqueamento racial, promovido pela recepção de imigrantes europeus, enquanto o Nordeste passava a ser estigmatizado pelo atraso, pela seca, pela pobreza e por uma mestiçagem vista como inferior e indesejada.[4] Nesse sentido, em vez do migrante nordestino ser valorizado como o sujeito produtivo, agente construtor das metrópoles sudestinas, a narrativa hegemônica repetida à exaustão pela imprensa, pela literatura e pelo senso comum que rotulou e ainda rotula de forma pejorativa, esse sujeito ativo e criativo em um estereótipo limitado ao retirante faminto, ao analfabeto e ao coitado, cuja existência passou a ser associada ao estigma do sujeito sofredor. 


Sistematicamente, essa visão distorcida foi alimentada ao longo das décadas pela espetacularização da miséria e pela criação do conceito da “indústria da seca”, que fixou no imaginário social a imagem de uma região exclusivamente vulnerável, árida e tutelada pelo Estado, apagando deliberadamente a diversidade e a potência regional. Na prática, a pobreza do personagem ficcional dos filmes e livros internacionais geram aclamações porque possuem um arco de resolução definido e inofensivo, ao passo que a desigualdade regional estrutural no Brasil é instrumentalizada pelas elites políticas e econômicas para manter divisões e justificar a manutenção de privilégios.[5] Esse fenômeno torna-se especialmente agudo e visível em períodos de polarização eleitoral, como o que vamos enfrentar no segundo semestre de 2026, momento em que o exercício legítimo da soberania democrática e as divergências de voto são utilizados como pretexto para discursos xenófobos que buscam desqualificar a capacidade intelectual, a autonomia e a racionalidade de homens e mulheres do Nordeste, tratando suas escolhas como mero fruto de assistencialismo. O crescimento alarmante de discursos de ódio nas redes sociais em pleitos recentes comprova que a identidade regional do Nordeste do Brasil foi transformada em um marcador ideológico a ser atacado de forma ativa, crescente e desumanizadora.[6]


A hostilidade e a violência verbal, portanto, afloram no exato momento em que o indivíduo historicamente marginalizado deixa de ser um objeto distante de compaixão e passa a ocupar espaços de relevância cultural, universitária e econômica, tensionando hierarquias estabelecidas. O ódio se sustenta na ignorância deliberada sobre a realidade de um Nordeste moderno, que abriga polos industriais pujantes, centros de tecnologia da informação, universidades e pesquisadores com produções acadêmica-intelectual, lastreadas historicamente, com impacto dentro e fora do Brasil,[7] além de uma riqueza cultural inestimável que perpassa a literatura, o cinema, a música, a moda, a culinária. Essa dinâmica de rejeição engendra ainda um fator psicológico perverso baseado no “complexo de vira-latas” cunhado por Nelson Rodrigues;[8] esse sentimento de inferioridade, comumente projetado em relação a culturas estrangeiras, reproduz-se internamente de maneira cruel, fazendo com que muitos migrantes nordestinos sintam a necessidade de sufocar seu sotaque, sua origem e sua história para serem aceitos como “civilizados” nos grandes centros urbanos.[9] Essa aculturação forçada e a consequente fragmentação da autoestima revelam o quanto o preconceito não está apenas no outro, mas penetra as subjetividades daqueles que são alvo dele através de um apagamento identitário violento.


Contudo, essa dinâmica secular de subalternização tem sido frontalmente confrontada pela própria vitalidade contemporânea da região, que progressivamente desconstrói o olhar paternalista e limitante do restante do país. O Nordeste tem se consolidado como um protagonista de vanguarda no Brasil,[10] destacando-se globalmente como polo de transição energética através das energias renováveis, tornando-se referência nacional em índices de educação pública e firmando-se como um centro efervescente de inovação tecnológica e produção científica.  À medida que o reconhecimento da dignidade regional se impõe, fica evidente que o preconceito e a ridicularização não refletem a realidade da região, mas sim os limites e as fraturas de uma sociedade que ainda falha gravemente em conciliar a história nacional e sua sensibilidade estética com a urgência da equidade social.


É curioso como nos comovemos com o herói frágil nas telas, como vibramos com o time que “não tem time”, como a torcida pelo “azarão” nos arranca um afeto genuíno, mas só porque ali no “jogo é limpo”, as regras são claras, e a vitória do menor não abala as grandes estruturas, não desaba colunas, não arranha o trono de ninguém. É um amor de quintal, seguro, domesticado. Mas quando a vida real atravessa a tela e o corpo que sofre é de carne e osso, com sotaque e forma especificas de agir, a comoção some. E aí percebemos: não é um lapso de empatia, é um desenho antigo, um projeto de séculos, uma ferida que não cicatriza porque nunca foi lavada de verdade. Enquanto o Brasil não encarar essa realidade, continuaremos aplaudindo heróis de mentira para não ter que olhar para os reais.




Notas:


[1] Professor de História da Universidade Estadual de Goiás – UEG. Autor do Livro A Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro: Ceará - Harvard - Ceará. 2024. https://alvesribeirocientista.com.br/

[2] Sugiro aos interessados a leitura, dos artigos publicados no site A Terra é Redonda, dos artigos: ROBBA, Olivia da Rocha. Futebol, memória e ancestralidade. A Terra é Redonda, 23 jun. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/futebol-memoria-e-ancestralidade/. Acesso em: 23 jun. 2026.; IBER, Christian; BAVARESCO, Agemir; ESSWEIN, Lutiero. Copa do Mundo: futebol, mercado e identidade nacional. A Terra é Redonda, 24 jun. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/copa-do-mundo-futebol-mercado-e-identidade-nacional/. Acesso em: 24 jun. 2026.

[3] ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 1. ed. Recife: Editora Massangana, 1999; FONTES, Paulo Roberto Ribeiro. Um Nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista (1945-66). 1. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.

[4] SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras. 1993; GONÇALVES, Paulo Cesar. Migração e mão-de-obra: retirantes cearenses na economia cafeeira do Centro-Sul (1877-1901). São Paulo: Humanitas, 2006.

[5] OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião: sudene, nordeste: planejamento, e conflitos de classes. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[6] REGO, Marina Chaves de Macedo. “CONHEÇO O MEU LUGAR”: Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais (1989 - 2022). Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.

[7] VASCONCELOS, Eduardo Henrique Barbosa de. A Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro: Ceará - Harvard - Ceará. Teresina - PI: Editora Cancioneiro, 2024.

[8] TIBURI, Marcia. Complexo de vira-lata: análise da humilhação colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.

[9] BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. São. Paulo: edições Loyola, 1999.

[10] FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). Nordeste cresce acima da média nacional e se destaca no cenário econômico. FGV Notícias, 19 mar. 2025. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/nordeste-cresce-acima-da-media-nacional-e-se-destaca-no-cenario-economico. Acesso em: 25 jun. 2026.

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