Entre o caos e a luta



Em um tempo onde a etimologia nos ajuda a recuperar e compreender o verdadeiro significado das palavras, parto do conceito de desenvolvimento no sentido político e me vejo entre a produção sustentada pelo capital e a possibilidade do desconectar da origem.


Em devaneios, me aproximo da teoria naturalista de Humboldt e inspirada na síntese da ciência geográfica proposta por Kant estabeleço-me entre a dúvida e o caos.


Em uma luta corporal me coloco a conquistar paisagens, era um ato natural daquele que foi determinado pelo universo para dominar a natureza, havia neste momento rara possibilidade de ser diferente, mesmo que o desenvolvimento ainda estivesse sobreposto às matas que cercavam nosso povo.


Em minha lente temporal percebo que ainda não é hora de se comparar salários entre homens e mulheres, mas sim de analisar lugares com verdes semelhantes ou díspares. Neste momento o relógio do capital não se mostra voraz mesmo que problemáticas socioeconômicas já gritassem por intervenções humanas.


Em doses homeopáticas, os semáforos controlam o ir e vir que se distancia do chão para ocupar o concreto que absorve a quentura do sol, mas não é capaz de absorver as dores daqueles que ganham o seu pão diante do marcador do tempo mercadológico. Aqui as quantidades legitimam a hegemonia do norte e o desenvolvimento de indicadores socioeconômicos é um novo olhar sobre os arranjos desenvolvimentistas.


Entre o novo e o crítico, fico com o que me possibilita compreender os paradigmas geográficos e interpretar o espaço trabalhado por mãos calejadas, tratadas como mercadoria, afinal, quanto vale o trabalho daquele que constrói um arranha céus e daquele que confeccionou o desenho da estrutura? Sem confluência, já não nos entendemos como as aves entendem o vento ou como as águas de um rio principal entendem seus afluentes... Disputamos espaços ocupados de forma hierárquica, onde um é o vento e o outro é a ave enfraquecida pela condição do tempo no vôo.


Em meio a tantas distâncias, vejo-me mascarada promovendo encontros que nos afastam de expressões coloniais e as enfraquecem. O desenvolver que nos tira da origem, nunca produziu o bem viver, ele fortalece a tese do chão que tudo dá sem descanso, estimulado por forças químicas. Entre este chão enfraquecido, rios, matas, serras e vãos está o povo do sertão que luta com a mão cerrada por seu Cerrado.


Este povo por muito tempo viu sua vida cronometrada pelo tempo da colheita, pelo florir do pequizeiro que acontecia de setembro a novembro. O tempo da terra já não existe para o desenvolvimento, tão pouco o do pequizeiro que nem espinhos têm mais. Se alguém tinha dúvida, esta se desfaz ao passo que o caos humano impediu o rio de dar de beber aquele que tem sede, pois este espaço de vida foi invadido por lama, terra morta, sem batatas, nem grãos.


Enlameados seguem, unidos pela perda de um ente querido, foi-se o rio, a terra, a moradia, mas não implodiram a mercadoria. Esta permanece, até quando? A resposta está no grito, que já não é do indivíduo, é da associação, da comunidade que agi e pensa a favor da circularidade.


Espaços vazios foram preenchidos por vozes potentes, são elas agentes de transformação dentro e fora de seus lugares, reconhecem que o “tambor é redondo para que ninguém se encaixe nos cantos”[1], assim a luta pelo envolvimento se faz no campo e na cidade com a confluência de povos e sujeitos brancos, negros, unidos pela diversidade; assim como um rio, que ao se encontrar com o outro, se fortalece.


Esta luta nos mostra a necessidade de se quebrar correntes históricas, curarem feridas abertas, compartilhar a vida e além de repensarmos nossa estadia na TERRA... Entre o caos e a luta, onde estamos?



Notas:

[1] Expressão utilizada por Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo) ao discutir o conceito de confluência.

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