LEGADO*



Tem dias em que estamos embebidos em emoção.


A voz não sai, está engasgada como se houvesse uma amarra segurando-a.


Eu poderia derramar aqui o sentimento que me engasga, apontando os reais responsáveis por esta barbárie envolvendo o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dominic Phillips, mas resolvi abordar esta tragédia por outro viés, aquele que enaltece sujeitos como Bruno, Dom e tantos outros que morreram fazendo o bem, partiram cuidando do próximo.


Quando nos dão uma missão de coragem, não é por que exalamos força, mas por sabermos conduzir situações com sensibilidade sem perder a firmeza que nos cabe. Assim são os que tocam o chão da floresta Amazônica, os corajosos.


Espirituosos, lutavam pela divindade que a floresta e seus povos os representavam. “Deus é a natureza”!


Partiram dali, “naquela imensidão amazônica”, no meio do Deus no qual acreditavam.


Eram ativistas, trabalhadores, seres humanos raros que se embrenharam na vastidão verde por um ideal de vida, o do cuidado.


Assim como Chico Mendes, irmã Doroth Steng, Maxciel Santos, Paulo Guajajara, Emyra Wajãpi, Reginaldo Barros, Maria Sousa, Bruno e Dom, lutavam pela floresta viva, em pé, sustentável, principalmente para aqueles que dependem diretamente dela: comunidades tradicionais e povos indígenas.


Vozes foram silenciadas, mas o legado de luta ecoa. O mundo agora sabe e reconhece o compromisso que tinham com a selva brasileira e com seus povos, tratava-se de uma razão de vida.


Para Dom, “foram anos a fio, de caneta na mão e caderno de repórter sobre os joelhos, ouvia e escrevia, ouvia e fazia amigos, ouvia e anotava. Conquistou respeito e admiração por seu jornalismo rigoroso em região coalhada de predadores humanos”.


Já Bruno Araújo Pereira, por outro lado, “tido como o maior indigenista em atividade no Brasil e há décadas referência internacional sobre nossos povos indígenas, deveria ser motivo de orgulho irrestrito por parte da Fundação Nacional do Índio, certo? Errado”.


Mas este reconhecimento veio do povo, Bruno! Daqueles por quem você sempre lutou. Você honrou seu propósito com nossa origem, teceu cuidado com a mãe brasileira que é indígena.


Não os faltou cuidado, os faltou apoio.


Interromperam a trajetória de Bruno e Dom, mas não impedirão que outros corajosos continuem a navegar pelas águas turvas que serpenteiam o garimpo ilegal, a pesca e caça predatória, o tráfico de drogas por esta “terra de ninguém”.


A realidade amazônica sempre foi crua, abandonada a própria sorte, é reflexo de um Brasil a deriva. Mas até mesmo nestas condições, é preciso esperançar.


A esperança mais urgente é haver claridade e verdade, e que estas nos levem para um Brasil que trate com sensibilidade e firmeza o que nos causa dor, comoção.


Se nossas origens estão na terra, na terra também está nossa humanidade, que possamos então escutar as vozes que tocam a terra para traçarmos um novo caminho.




*Diálogo com a crônica: “Réquiem por Phillips e Bruno”, escrita por Dorrit Harazim, disponível no site Metrópolis (https://www.metropoles.com/blog-do-noblat/artigos/requiem-por-phillips-e-bruno-por-dorrit-harazim)

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